segunda-feira, junho 13, 2011

Borralheiro: Minha viagem pela casa - Carpinejar

Eu sou apaixonada pelos textos do Fabricio Carpinejar, e hoje navegando pelo seu blog, descobri que ele lançou mais um livro, "Borralheira: uma viagem pela casa", retrata um novo homem, que não tem vergonha de sua sensibilidade, que cuida dos filhos e pensa no jantar, que é romântico e adora lojas, que pede desculpa com o riso e se orgulha da própria carência. Diante de sua mulher, não resiste e pergunta, a todo momento, o que ela está pensando e o que está fazendo.

Carpinejar tem 15 livros publicados e os últimos têm sido verdadeiras declarações de amor ao universo feminino, à mulher, a sua própria, inclusive, esse é o quarto livro de crônicas do autor. Antes foram lançados O Amor Esquece de Começar, Canalha! e Mulher Perdigueira. Entre eles, o primeiro livro de twittadas do Brasil, uma coletânea das melhores frases publicadas em seu microblog, www.twitter.com/carpinejar, hoje com mais de cem mil seguidores.
 Eu tô ansiosa para ter o meu e devorar todinho, enquanto isso deixo um trechinho aqui.

Carpinejar e a mulher, Cínthya Verri: papeis trocados

DO LAR

As mulheres caíram numa cilada masculina. É um suicídio governar o país, o estado, o município. Bronca mais peluda do que as costas de Tony Ramos. Cansamos. Foi um erro de cálculo. A autoridade desmagnetiza o prazer. É um encalhe de problemas, sempre tem um funcionário que pretende tirar vantagem, um escândalo, uma secretária gostosa no caminho, um relatório a entregar, além do excesso de reuniões que não permitem escapadinhas. Não há como arrumar amantes na posição de chefe, logo vira assédio sexual.

Não deu certo com a gente. O Imposto de Renda nos venceu.
O enfarte nos venceu. Não queremos perder cabelos e passar a aposentadoria pagando implante. Duro demais enfrentar doze horas de expediente, suportar a fogueira das vaidades; não sobra folga para mais nada. Se eu fosse vocês, não pegava essa geringonça. O que pretendemos é ser do lar. Não conhecemos nenhuma dona de casa que foi processada; é mais seguro. Já temos prática em lavar carro; aprontar o quarto é moleza. O que nos atrai neste milênio é preparar o jantar consultando um livro de receitas. Testar trituradores de camelôs. Não nos importamos em receber mesada, podem deixar em cima da mesinha antes de sair. Não esqueçam o dinheiro do gás.
Produziremos três pratos quando vocês chegarem. Prometemos um doce toda semana, um pudim ou ambrosia, como queiram.
Mas, por favor, só avisem quando vierem com amigas para jantar, que tudo seja planejado, horrível dar vexame às visitas.
Controlaremos a validade dos produtos na geladeira. Necas de se afligir com o supermercado, não iremos sobrecarregá-las com frivolidades domésticas.
Nossa missão será garantir a tranquilidade de vocês, chefas de família. Vamos encher a banheira com sais e espuma. Quando voltarem do trabalho, pegaremos a maleta, a bolsa e perguntaremos com a voz descansada:

— Como foi o dia, meu bem?

De noite, estaremos disponíveis ao ato sexual, relaxados.
Compraremos óleos e cuecas fetichistas, talvez fantasia de policial ou de torneiro mecânico. Depois de encaminhar as crianças, colocaremos velas pelo corredor, Madonna no CD, e mostraremos, à meia-luz, os novos passos de pole dance.
Não descuidaremos da aparência. Fugiremos para shoppings à cata de uniformes esportivos. Diariamente, faremos um desfile dos times ingleses, italianos, espanhóis, franceses. O que nos interessa mesmo é assistir ao futebol na televisão.
Sempre há um jogo a qualquer hora — não existia isso antes. Qualquer horário, acreditem. Agora mesmo, por exemplo, acompanho o Campeonato Alemão,
Schalke versus Bayern, enquanto organizo a coleção de sapatos de minha esposa.
Os homens não querem mais o poder. Descobriram que a submissão é a força.
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