quarta-feira, julho 06, 2011

Um suspiro

Foto: Odin Standal

Eles tinham uma intimidade que transcendia as palavras, bastava um olhar, um sorriso, um levantar de sobrancelhas. Ela cuidava das coisas dele e ele cuidava para que ela sorrisse sempre. Andavam lado a lado, sonhavam juntos, dividiam macarrão que ela fazia no meio da noite e riam um do outro. Viam filmes de ação, viajavam com os amigos, lavavam o carro, conversavam sobre tudo e sobre nada.

Havia ali mais que amizade, havia companheirismo, cumplicidade. Ele a ensinava caminhos, ria do seu jeito de morder o canto esquerdo da boca e se perdia nos seus cabelos longos e emaranhados. Ela passava horas desenhando os contornos do seu rosto com a ponta do dedo, gostava do furinho que tinha na testa e do jeito que ele explicava as coisas mesmo quando ela já sabia.

A vida os levou a destinos diferentes. Um leve desvio, um suspiro e um pouco de tempo
Ela cortou os cabelos e aprendeu os próprios caminhos. Ele aprendeu a fazer macarrão e a cuidar de suas coisas. Eles que antes se conheciam pela voz, pelo olhar e pelo cheiro agora eram dois estranhos.

Ela desejou conhecê-lo novamente, ele a quis entender outra vez, mas o vazio da espera, do tempo havia sido preenchido. Aquela admiração mútua, a cumplicidade, o toque, tudo havia se transformado. Não havia mais espaço para nós, ele era apenas ele e ela era somente ela.

O telefone dele tocou algumas vezes, a janela do MSN dela às vezes pisca, mas faltam as palavras. Ele olha as novas fotos do perfil dela a procura de algum sinal daquela menina, ela busca notícias com os amigos tentando resgatar um pouco do que sentia.

Ela decidiu encarar a verdade, não havia mais nada ali. Uma história, uma história que não podia ser resgatada. Não, ela não enterraria, apenas o deixaria no lugar certo: no passado. O telefone dele não toca mais.

Ele? Ela não se lembrou de procurar notícias.

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